Com as marcadas e - consideradas - enfadonhas discussões acerca da escolha do formato que o DJ utiliza, perdemos de certo modo o foco no mais importante, que é a qualidade da música. Então, talvez por isso, eu queira retornar à essa discussão para destacar alguns pontos que me motivam a continuar comprando meus bons, velhos e fiéis bolachões, e que evidenciam que uma coisa está ligada à outra.
A música representa uma parcela tão importante na vida da maioria das pessoas hoje, que acabou se tornando efêmera. Ninguém ouve os mesmos sons por muito tempo e já não se criam mais faixas clássicas. Claro: os clássicos de amanhã são as músicas de hoje, mas vamos parar pra pensar: estamos no tempo do transitório. Não surgem mais grandes artistas que ficam no topo por 10 anos. Os iPods - incluindo o meu - possibilitam que você leve toneladas de faixas que nem serão ouvidas e a cada dia é preciso buscar um novo ciclo de ditas ‘inovações’ para que se continue a vender música. Isso quando ela chega a ser vendida.
O que eu penso: a música é a mensagem. Ela deve chegar ao seu receptor. O problema, é que ela chega cada vez menos. Para o público, a música perde a eficiência quando ela passa a não marcar mais. Quando perdem-se os hits, porque a todo dia existem novas faixas a serem tocadas. Dizem que não importa o meio que se utiliza para passar a mensagem, desde que ela chegue. Pra mim não é bem assim. O meio utilizado já coloca um sentido totalmente diferente na mensagem em si. Ele trata e traz consigo uma série de valores culturais e cultura, meus amigos, é o que faz existir o conceito de cena. Dizem também que um DJ de verdade prioriza só a música. Se fosse assim, toda a tonelada de wannabes que estão por aí, já teriam tomado o lugar de muitos bons nomes. É fácil pegar o chart do mês e mixar. Aliás, pra quem não é DJ e não sabe, mixar é ridiculamente fácil. DJ de verdade prioriza a música e a cultura. Pois sem cultura, acabamos como estamos, sem graça nenhuma.
E é por isso que acredito que o meu formato, tão amado, já está morto há tempos no Brasil. Porque não se discute cena, não se transmite mais cultura e se esgotaram os fóruns de discussão, que agora só servem como ‘classificados’. A gente não arruma mais inimigos defendendo opiniões, o que é verdadeiramente triste.
Outro ponto negativo: a facilidade de se conseguir músicas - e eu falo da mania de brasileiro de tentar tirar vantagem de tudo - faz com que elas fiquem cada vez mais descartáveis. Todo mundo agora quer tocar, ser DJ. Ninguém quer pagar um download. É só entrar no soulseek ou ser amigo de alguém que tenha a música e esquecer que um dia já respeitamos artistas. DJs escolhem seu formato e o fazem da maneira que melhor os cabe. Só gostaria que a maioria buscasse um pouco de informação e valorizasse o trabalho alheio, pagando quase nada pelo MP3.
A música digital e a tecnologia estão aí e, acreditem, elas não são negativas. As pessoas e a falta de discussão, leia-se cultura, é que são.
PS.: aproveitando o ensejo, digo e repito que Andy C é definitivamente o melhor DJ de drum’n bass do mundo. E como na cena jungle ainda se lança em vinil, é nele que me espelho. Pra quem gosta de uma boa quebradeira, fica a dica do vídeo a seguir:
http://www.breakbeat.co.uk/DNBTV/default.aspx?programID=100446
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