Dona Dal acha que sabe
Registro minha falha e peço desculpas aos leitores e à Márcia Ganem, estilista que abriu os trabalhos no Fashion Rio de ontem: não prestei atenção aos cinco primeiros minutos de desfile. Nada. Nadinha. Tudo culpa do cartaz, bem discreto na verdade, colado próximo à passarela: "proibido entrar com armas de fogo neste local".
Como a imaginação voa longe, imaginei o senhor Jean Willys, ex-BBB de alguma época, ou Daúde, a cantora, com um trabuco poderoso na cintura. Vai saber! É que apesar do aviso, revista que é bom, nada. E olha que lugar para esconder armas era o que não faltava: fashion que é fashion carrega sacola dois por dois com um buraco negro no fundo, e a platéia estava cheia de mulheres, e homens, com bolsas gigantes e óculos escuros idem. É a moda, minha gente.
E a baiana Márcia, que nem sabia do "decreto", saiu-se com "um minha arma é outra". Pudera! As saias curtíssimas de sua coleção de inverno deixaram alguns derriéres à mostra. Dá-lhe modelo a puxar renda-filé – matéria prima das redes de pesca – e ajeitar o trameado dos micro-vestidos, todos com cinturas bem marcadas. As cores são de inverno mesmo: branco-pálido, cinza-sujo e preto-emagrecedor. Nos pés: saltos altíssimos com tiras que abraçam os calcanhares e ditam o tal must have da estação. Anota aí: plataformas e sandálias estilo gladiador romano. Esse é o tem que ter que empesteará as vitrines nos próximos meses.
E quando a gente pensa que já viu de tudo em um dia, Mara Mac, que já foi chamada de rainha dos desfiles para defunto levantou um cemitério inteiro com seu congestionamento de modelos. Primeiro apareceram umas meninas tristes empurrando um monte de Mercedes-Benz – trâfego de gente fina é outra coisa – com um réquiem cavernoso de trilha sonora. Todas enroladas em malhas plissadas, muito legging, camisões amplos e aquele visual Flash Dance chique. "É a mulher moderna na dança do caos urbano", definiu bem antes das meninas entrarem na passarela.
De novo o cinza, de novo o preto e para quebrar um tiquinho da sobriedade um e outro detalhe vermelho nas echarpes, cintos, bolsas e moletons. Como a cartela de cores dos estilistas é cheia de nomes infinitos, Mara chegou com a novidade toffee – o nosso bom e velho marrom-caramelo – em tricôs bem molengas. Quer saber? Tudo um absurdo de lindo: a música, o teatro da coisa, os carros e, óbvio, a coleção que é sem frescura, ao gosto do freguês e fácil de usar.
Os drapeados molengas, sobreposições, armações e a paleta de cinza continuaram com Melk Z-Da. A diferença é que a grife atende as bonitas que gostam de um brilho e carrega no dourado e prateado. E também nas calças justas que desenham até o cérebro de quem não está com o corpo em dia. Há quem goste. Também desfilaram ontem Victor Dezenk e Animale.
Deixa eu reclamar? Se a passarela é toda riscada em giz, se milhares de
pessoas se desdobram para mantê-la livres de quaisquer pés que não
sejam os das modelos, por que os bonitões da novela das oito daquele
canal e daquele outro canal fazem do lugar o tapete da sala de casa? E
ai de quem for reclamar com a turma. Inventa-se todo tipo de desculpa:
"ah, fofa, não está vendo que não dá para chegar ao meu lugar se não
for pelo meio?". Senhor, dai-me paciência. Um bocado que amanhã tem
mais.
Hoje desfilam Sommer, os novos designers Caroline Rossato,
Luciana Galeão e Kylza Ribas, Permanente, Maria Bonita Extra, Graça
Ottoni, Drosófila e Cavendish.
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Contatos: dalilagoes@gmail.com
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