A boataria que assombra o festival desde o final de 2007 não foi confirmada. Mas é fato: tudo encolheu. De quatro tendas, um trio elétrico e um palco para apenas duas tendas e um palco? Uma mudança imensa, com apenas dois anos de diferença. Ao menos o formato falido dos dois dias foi abandonado e ficamos apenas com o sábado.
Cheguei a tempo de ver mais da metade do show do Montage. Não foi minha escolha, diga-se de passagem. Apenas me dei mal ao escolher o Live Stage como ponto de encontro, mas ouvi o som da dupla. Eu não sou lá muito fã de malabarismos e a ginástica do vocalista não me impressionou muito. Os samples e as bases realmente tinham pegada, mas toda aquela performance nada inovadora, plagiada do Macaulay Culkin, não me convenceu. E o som não estava lá dos mais afinados: a voz ficava estridente e a base parecia ser o complemento. Fiquei para o começo do MixHell, mas não durei muito pela curiosidade de saber por onde andava o francês Agoria. E tive a triste surpresa de que o ex-grooveiro anda freqüentando as rodas do minimal sonolento e pouco suingado.
De volta ao palco e nem peguei o fim do MixHell. Sim, consumiu quase uma hora o deslocamento do palco para a tenda Skol, a mais distante, lá no finzinho do espaço do Sambódromo. Não entendi tanta distância. Mas cheguei a alguns minutos da arrumação para me acotovelar diante do palco.
Para provar o “no need to ask my name to figure out how cool I am”, o duo francês Justice fez da sua apresentação no Skol Beats de 2008 o momento mais esperado do evento. O motivo? Um pouco óbvio, não? Música boa e dançante somada ao hype pelo qual a dupla passa já é razão suficiente. Mas o show foi bem “Ok, obrigado!” A tentativa do clima “daft punk” não foi bem o formato que melhor teria agradado àquele público tão heterogêneo. Sobrou impressão de que se esperava algo um pouco mais intimista. Os jornalistas de plantão, como esperado, elogiaram mais a apresentação no Rio.
Tudo começou como no CD, com “Genesis”. Talvez o começo pouco impactante tenha custado o troféu de melhor momento do palco para outro duo - do qual falo logo mais. Até o primeiro mega-hit, que foi “D.A.N.C.E”, o show seguiu devagar, empolgando no primeiro minuto de cada música e caindo nos dois ou três seguintes. Essa, a mais famosa da “banda”, segurou muito tempo de animação, misturada à introdução de “Atlantis to Interzone” do Klaxons. Mas foi em “We Are Your Friends” o ponto alto do show, com a participação ativa da platéia que completava os gaps deixados por Gaspard e Xavier, cantando com vontade. Momento de extremo êxtase que chegou perto de ser reproduzido apenas em “DVNO”. Veio, venceu, mas não convenceu.
A seqüência Marky-Pendulum não era bem o que todo o público do punk-fashion-techno-rock esperava, mas a platéia manteve-se por ali. O DJ número um do Brasil fez uma bela festa, com hits e faixas melódicas e fez valer a presença. Já a banda Pendulum, surpreendeu realmente quem não esperava tanto rock no Skol Beats. A batida marcada do drum’n bass imperou, dando algum espaço para um breakbeat ou outro. Mas no fim das contas, foi um belo de um show de rock. É impressionante a moral do grupo, o único que teve licença para incluir em seu show uma versão acelerada do hit “Voodoo People” do Prodigy. E o desempenho também não deveu em nada.
Aproveitando o atraso causado pela arrumação do palco, fui conferir alguns minutos de Renato Cohen. É um daqueles que poderia acrescentar o nome “techno” no RG, sem medo de errar. Todo aquele groove, com som forte e dançante, e o BPM para rebolar fizeram o fosso de imprensa virar uma espécie de área VIP: tanta gente acumulada, desistindo de tirar fotos e caindo no techno com muito gosto. Parecia um meeting point acidental, nenhum fotógrafo queria mais trabalhar. Quando veio um remix desconhecido de “Pontapé”, então? Foi a benção para valer o set e me mandar de volta ao palco, devidamente satisfeito.
De volta ao techno-rock, chegamos ao duo Digitalism, ponto alto do palco. Até os mais xiitas do eletrônico pularam com os hits e toda a barulheira das timbragens roqueiras rasgadas incrustadas em batidas de 4×4 aos seus 132 BPMs. Música empolgante atingindo a um público inesperado. Tão bom o show que nem me lembro de muita coisa, só de pular e ganhar dois dias de batatas doloridas. Eu que não conhecia muito o som dos alemães, já fiz do Essential Mix deles um dos mais tocados do meu iPod.
Às quatro e meia retornei ao techno e ouvi um pouco de Christian Smith que seguiu muito bem o ritmo de Cohen. Sabe aquele techno gostoso (antes da maré de música lenta) que fazia todo mundo rebolar em Brasília há uns dois anos atrás, pelas mãos de DJs como o Ricco e o Hopper? Então, era esse. Delícia de se ouvir e matar a saudade. Não durei muito também, as pernas ainda iriam peregrinar até a tenda Skol, lá no fim do mundo e fui devagar. Fabrício Peçanha ainda tocava e eu cochilava de pé com aquele som meio chato. Acordei com o remix tosco do Nirvana. Fui tomar uma água, puto da vida, pra esperar o Murphy.
E ele veio, pra fechar decentemente minha noite que já era manhã. Techno. E o povo de Brasília todo lá, matando a saudade deixada pelos DJs que largaram esse som de mão (alguém aí faz uma festa com mais de 132 BPM, please?). Com toda a pegada já de costume e uma tenda lotada e agitada, Murphy colocou a cereja no meu bolo e adentrou de vez no meu top three do evento. Nessa lista constam o live do Pendulum e o Digitalism. Show de bola para o paulistano que garantiu seu lugar no line up e na minha lista de favoritos.
Organização e limpeza foram fatores marcantes nessa edição do SB. Parece que contrataram a mesma empresa do Planeta Terra do ano passado. Não se via sujeira, tudo organizado e bem acertado. Problema mesmo era só a ausência de um walk machine pra ir do palco à tenda Skol.
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